19 Março 2009
Brighid ilumina os seus
Do primeiro fogo de Primavera, ela canta,
A sua voz soando clara através do ar frio de inverno,
Enquanto ela se ergue e recolhe os seus pertences.
Na primeira luz, ela boceja
Na primeira luz da alvorada, ela boceja
O bosque dorme sobre a guarda de Brighid
e a porta enche-se com brumas dos relvados.
Em pés descalços, ela caminha
Em pés descalços, pelo solo gelado, ela caminha
Ela caminha até ao poço, seus baldes encher,
Onde penduraram tiras de tecidos coloridos.
Como agua, a Primavera se erguerá
Como agua, a Primavera, ela diz, se erguerá
Quando o clima é agreste, e as canas junto ao rio
Se vergam com o peso da neve e do gelo.
Doce é a canção da agua
Doce é a canção de fogo e agua
Em um caldeirão ela jorra toda a agua que tem
Para aquecer os seus filhos e filhas.
Do fogo sagrado, ela grita!
O fogo sagrado extinguiu-se! Ela grita,
Mas dormindo, ninguém ouve,
Ela é a única desperta.
Então cantando ela carrega a lenha
Então cantando ela carrega o molho de lenha
Ela pode cantar, pois tudo fez,
E os seus são gentis e bondosos.
Mas por vezes as pessoas esquecem
Por vezes as pessoas, diz Brighid, esquecem
E ela cuida da chama, e chama-a pelo seu nome,
E a chama ergue-se e regressa a ela.
Do primeiro fogo, ela canta
Do primeiro fogo a arder, ela canta,
Depois desaparece, como o fumo no ar,
Como o principio invisível da Primavera.
05 Janeiro 2009
Um apelo
Obrigado a todos, em especial a McMendes, que guardou os textos que já aqui estão recolocados.
Práticas - Parte VI - Virtudes
As sociedades indo-europeias da idade do ferro possuíam sistemas éticos baseados em virtudes, e os Celtas não eram excepção. Mas que quer isto dizer?
Bem, quando alguém na idade do ferro se perguntava a si mesmo, como devo eu viver a minha vida de uma forma ética, ou invés de pensar no que não fazer, como hoje em dia fazemos, no cristianismo, mas também na Wicca por exemplo (porque "Desde que não prejudiques ninguém, fazei o que quiseres" também impões a ética pela negativa, "não prejudiques ninguém"), essa pessoa pensava antes, o que devo eu fazer, como devo eu viver de forma a viver de forma ética.
A resposta era um conjunto de virtudes, que indicavam que qualidades eram necessárias a uma vida correcta ao invés de uma lista de defeitos a evitar, ou seja um código moral positivo. De onde vêm essas virtudes? Vêm principalmente da mitologia, tendo sido qualidades demonstradas pelos próprios Deuses muitas vezes. Outras advém da vida na idade do ferro.
Antes que se assustem e perguntem a vós próprios, então mas ele chama a este post práticas e está para aqui a falar em ética e filosofia, deixem-me responder: as virtudes podem e devem ser vistas como praticas, como algo a praticar constantemente na nossa vida quotidiana, pois são talvez a parte do reconstrucionismo Celta que mais se funde com a vida quotidiana. Viver pelas virtudes dos antigos Celtas é também uma forma adorar os Deuses.
Que virtudes são essas então? A maior parte dos reconstrucionistas Celtas guia-se por uma lista de seis virtudes, semelhante os nove nobre virtudes dos Asatru. Para outros o numero pode variar.
A mais importante, e quase todos os CRs concordarão é a Hospitalidade, em irlandês antigo Oígidecht (em irlandês moderno Aíocht) que deriva de Oígi, que significa estranho/forasteiro. A Hospitalidade é antes de mais um dever sagrado, nas sociedades Celtas e no reconstrucionismo Celta. A Hospitalidade é o tema central de muitas historias na mitologia Celta.
Pratica-la pode ser simples, como por exemplo garantir que os nossos convidados são recebidos com comida e bebida, fazendo-os sentir-se à vontade em nossos lares, oferecer a casa a um amigo para pernoitar se bebeu de mais para conduzir, exceder-mo-nos na cozinha para uma visita, etc.
No entanto os deveres da Hospitalidade funcionam em dois sentidos, havendo deveres também para o convidado. O dever de não abusar da Hospitalidade que lhe é oferecida, de respeitar os costumes do seu anfitrião, de não deixar a casa onde é recebido em pior estado do que estava quando chegou, de dar algo em troca pela Hospitalidade oferecida, seja um pequeno presente para o anfitrião, seja apenas a sua boa companhia.
Na idade do ferro, a Hospitalidade era uma questão de vida ou de morte, talvez dai advenha a sua importância.
Podemos também considerar a Hospitalidade de outras formas. O acto de fazer uma oferenda não é mais do que oferecer a nossa Hospitalidade aos antepassados, aos espíritos e aos Deuses.
Aproveito para fazer um a parte, um CR nunca invoca um Deus ou um espírito ou um antepassado, como se faz em religiões neo-pagãs, pois tal seria um abuso, da mesma forma que obrigar alguém a comparecer perante nós contra a sua vontade. Um CR simplesmente oferece a sua Hospitalidade a eles.
As outras virtudes normalmente praticadas pelos CRs são a Honra, a Lealdade e a Coragem, bem como a Honestidade e a Justiça. Honra como a virtude de não praticar actos que nos desonrem perante a comunidade em que nos inserimos, Lealdade como a virtude de ser incondicionalmente fiel ao nossos, Coragem como a virtude de não vacilar perante o medo ou pressões e fazer o que é correcto, Honestidade como a virtude de não falar falsidades, de ser fiel à nossa palavra e Justiça como a virtude de manter o nosso comportamento de uma forma correcta, corrigindo os erros que cometemos, mantendo uma rectidão total em relação ao correcto comportamento humano.
Praticando a incorporando estas virtudes nas nossas vidas tornamo-nos melhores pessoas, vivendo vidas éticamente satisfatórias, de bem com o mundo e os que nos rodeiam, hoje, tal com há 2000 ou 3000 anos.
Hospitalidade
Honra
Lealdade
Coragem
Honestidade
Justiça
Gostaria também de lembrar o lançamento do livro de Brendan Meyers sobre o assunto, para o ano que vem, que estou mortinho para ler.
Práticas - Parte V - Diferentes caminhos no Reconstrucionismo Celta
Já mencionei neste blog a existência de diferentes caminhos dentro do reconstrucionismo Celta. Mas que quero eu dizer com isto?
Em todas as religiões, existem diferentes maneiras de a viver. Em primeiro lugar pessoas diferentes procuram coisas diferente na religião e isso influencia a forma como elas interpretam a mitologia e as fontes disponíveis sobre a espiritualidade dos antigos Celtas.
Os principais caminhos dentro do RC estão directamente relacionados com a divisão das classes nas antigas sociedades celtas. Alguns sentem o chamamento de Divindades guerreiras como an Morrigan e sentir fortemente o impulso para seguir o caminho do guerreiro e trabalhando com toda a mitologia sobre os Fianna ou Cúchulainn.
Outros podem sentir o apelo de Brighid e Ogma, Divindades do conhecimento, da poesia, e seguir o caminho dos Filidh e perseguir a chama de Iomas e praticar ritos de êxtase.
Outros ainda serão atraídos para divindades como Airmid e Diancecht, e praticar o caminho do curandeiro, praticando a cura através de plantas por exemplo.
Os que sentem o apelo para trabalhar para a sua comunidade, agindo como sacerdotes em rituais colectivos, ensinando e partilhando mitologia e conhecimentos, podem identificar-se como alguém que segue o caminho do druida.
Haverá quem procure misticismo, quem procure ligação com a terra, e também que simplesmente deseje prestar culto através de oferendas apenas, nos seus altares em casa.
Muitos terão patronos, escolhendo praticar actividades relacionadas com as suas Divindades patronas. Por exemplo, alguém cujo patrono seja Brighid pode decidir manter a sua chama. Alguém cujo patrono seja Goibniu pode decidir forjar metais ou fazer cerveja. Alguém cujo patrono seja Manannan ou Fand, pode fazer peregrinação ao mar, ou praticar actividades relacionados com o mar. Alguém cujo patrono seja uma divindade com an Morrigan, pode praticar artes marciais, caça ou trabalho com cães ou cavalos.
Como disse no inicio, pessoas diferentes tem necessidades e visões diferentes sobre o mundo.
Práticas - Parte III - Divinação
A divinação era uma prática comum entre os povos Celtas antigos, como alias o era entre a maioria dos povos europeus da idade do ferro e há registo de diversos tipos de divinação.
A mais conhecida será certamente o Ogam (em irlandês antigo, ou Ogham em irlandês moderno). O Ogam é antes de mais um alfabeto, composto por 20 letras (ou feda, sendo que feda refere-se ao plural e fid ao singular) agrupadas em 4 aicmes (grupos de 5 letras). Se pesquisarem na net ou lerem livros mais "new age" sobre o assunto encontraram um quinto aicme, que é conhecido por forfeda. Este é composto por 5 letras que foram adicionadas mais tarde para lidar com sons que não são nativos ao gaelico. Estes feda são consideravelmente diferentes a nível formas dos 4 aicmes mais antigos.
A maior parte das inscrições em Ogam encontradas (na Irlanda, na Escócia, no pais de gales e na ilha de Man) são em pedra e serviam para a delimitação de terrenos. Destas as mais antigas datam do século IV. No entanto peças mais antigas em osso e âmbar foram encontradas contendo inscrições de Ogam e supõem-se terem uso magico sob a forma de amuletos.
Há uma grande tendência por parte dos recem-chegados para comparar o Ogam com as Runas nórdicas. No entanto há grandes diferenças entre eles. Em primeiro lugar está a sua criação. Ao contrario das Runas, que foram descobertas por Odin que se sacrificou a ele próprio na arvore do mundo para ter acesso ao conhecimento das Runas, o Ogam não foi descoberto, foi criado, por Ogma, Deus da Elequência e feroz guerreiro dos Tuatha dé Danann. Segundo a mitologia, Ogma (também adorado no continente sob a forma local de Ogmios) inscreveu o primeiro fid sete vezes num ramo de bétula para avisar seu amigo Lug mac Elathan de que sua mulher seria raptada sete vezes pelo povo dos Sidhe. Esse primeiro fid ficou conhecido por Beith, que significa bétula.
Ogma é considerado o pai do Ogam, e a sua faca a sua mãe.
Há bastantes indícios nos textos mitológicos de que o Ogam era utilizado quer para divinação quer para magia, como por exemplo a passagem do Táin Bó Cúailnge
O Ogam também está fortemente ligado aos Filí, os poetas sagrados da antiga Irlanda, e como tal as Divindades Ogma e Brighid.
A maioria das fontes modernas sobre Ogam utiliza o paradigma do Ogam das arvores, que deriva dos textos de Robert Graves. Como já antes neste blog afirmei, os textos de Robert Graves, embora poéticos e bastante evocativos, são bastante incorrectos e imprecisos no que toca a assuntos Celtas, tendo o seu paradigma do Ogam das arvores sido bastante contestado na altura em que seus textos foram publicados (e até aos dias de hoje), mesmo pelo avô do próprio Graves, que era um académico reconhecido
Quem desejar um bom documento sobre Ogam das arvores, de uma perspectiva Reconstrucionista Celta, tem aqui um bom recurso.
O processo de divinação (ou uso magico) utilizando Ogam é bastante complexo para expor num pequeno post introdutório. Recomendo a quem tiver interesse que leia o livro da Erynn de que já falei neste blog. É de longe o melhor trabalho a abordar o Ogam ao nível prático que já tive o prazer de ler, tendo a vantagem de ser escrito por uma Filidh praticante há mais de vinte anos, sendo actualmente o único livro explicitamente CR em edição (com a excepção do FAQ).
A divinação entre os Celtas não se limitava ao Ogam, havendo bastantes registos de outros tipos de divinação, como por exemplo a divinação usando o comportamento de corvos e gralhas. Penso que será escusado referir a ligação que ambas as aves têm aos outros mundos.
Sobreviveram também relatos de ritos de êxtase profético e divinatório, como o Tarbhfeis (a festa do Touro) e o Tigh 'n Alluis (cerimonias realizadas em saunas rituais, com bastantes semelhanças ás Pedras Formosas da Celtiberia), e ainda o Imbas Forosnai. Quanto a estes falarei deles mais tarde, quando fizer um post sobre práticas de êxtase.
Uma prática comum consiste em recorrer à divinação com Ogam para determinar como uma oferenda foi recebida, e se será necessário recorrer a oferendas adicionais.
Práticas - Parte II - Glanadh/Saining
A forma mais comum que este rito assume é bastante simples (portante este post será bastante mais curto que o anterior) e deriva da tradição escocesa de fazer uma purificação do lar pela altura de Samhain, queimando aparas de zimbro. Tudo de que necessitam é de um recipiente à prova de fogo onde colocar aparas e bagas de zimbro a arder de forma a produzir fumo. Caso não seja possível queimar zimbro, pode-se utilizar óleo essencial do mesmo, num difusor.
O ritual consiste em espalhar o fumo no espaço onde o rito se realizará e sobre os participantes. É importante relembrar que o espalhar o fumo no espaço de forma a purifica-lo não corresponde de forma alguma à "criação de espaço sagrado". Tal conceito não existe no reconstrucionismo Celta. O espaço não precisa de ser tornado sagrado, pois no reconstrucionismo Celta, toda a terra é vista como sagrada, mesmo que possam existir locais com presença mais forte que outros. O espaço sagrado encontra-se, não se faz.
Tal como acontece com as oferendas, o Glanadh é mais do que simplesmente espalhar fumo sobre um espaço e sobre as pessoas neles presentes. Também requer intenção e energia. Durante o Glanadh, os participantes devem estar concentrados na sua purificação, no abandono de um estado de consciência normal, para um estado de consciência "ritual", à parte da vivência quotidiana.
Enquanto o fumo se espalha e eleva, devem respirar profunda e lentamente, contando nove inspirações e expirações, a cada uma afastando-se cada vez mais da consciência quotidiana e focando-se no ritual a realizar.
Não é estritamente necessário que o Glanadh seja feito queimando zimbro. Pode ser também feito com agua, aspergindo-a utilizando ramos de zimbro. Pode também ser feito somente com fogo.
Práticas - Parte I - Oferendas
Recentemente alguém num fórum referiu a importância de dar aos recém chegados ao Reconstrucionismo Celta algo para fazer para além de algo para ler. Isto porque a maioria dos recém chegados acaba por se perder no lado intelectual do reconstrucionismo, que pode ser confuso.
Na realidade de nada serve o trabalho de pesquisa, no Reconstrucionismo Celta, se não for para suportar o lado pratico, de interacção e comunhão com os antepassados, com os espíritos e com os Deuses.
Já falei brevemente sobre o assunto, mas talvez seja altura de aprofundar.
É importante ter em mente que nenhum CR pratica a sua religião de forma exactamente igual a todos os outros, por diversos motivos. Esses motivos estão já explorados no CR FAQ, na pergunta "You talk a lot about these "practices", but can you describe them in more detail?" .
Gostava também de explicar porque razão falo tanto do CR FAQ, pois a resposta está relacionada com o paragrafo anterior. O CR FAQ é um dos dois únicos documentos de consenso escritos pela comunidade CR, de forma a representar as crenças e praticas de toda a comunidade. É essa a razão porque o refiro tanto, porque não representa um único individuo, mas o conjunto da comunidade.
Como disse já, a pratica mais importante de um Reconstrucionista Celta são as oferendas. As oferendas estão presentes em todos os ritual Reconstrucionistas Celtas, desde pequenos ritos privados, aos Festivais de Fogo.
A maioria dos Reconstrucionistas Celtas, fazem oferendas diárias aos espíritos da casa e aos antepassados, aos espíritos da natureza e aos Deuses, os Deuses. Para melhor entenderem esta questão vou dissertar um pouco sobre os antepassados, os espíritos da natureza e os Deuses.
Os antepassados, os espíritos da Natureza e os Deuses são categorias que utilizamos para os "seres espirituais", cuja distinção entre elas não é tão linear como parece à primeira vista.
Por antepassados entende-se dois tipos distintos de antepassado:
- Os antepassados de sangue, os nossos pais, avós, bisavós, mas também qualquer outra pessoa de nossas famílias mesmo que descendente, que tenha já partido;
- Os antepassados de espírito, os nossos antepassados longínquos (Lusitanos), os povos Celtas antigos, os heróis míticos, o fundador da família, que pode ser também um animal (nos casos de famílias que segundo lendas descendem de criaturas como as Selkies, espíritos das focas) e etc;
Dentro da primeira categoria encontramos basicamente dois tipos de antepassados, os mortos recentes e os que já partiram à algum tempo. Os mortos recentes necessitam da nossa ajuda, das nossas oferendas e orações por algum tempo, até que se acostumem à sua nova condição.
Os que já partiram à algum tempo, por outro lado, acabam com o tempo por se tornar concelheiro e guardiões da sua família e do lar dos mesmos, os espíritos da casa.
Quanto aos espíritos da natureza, estes são os espíritos dos locais (montes, vales, rios, lagos, etc), dos animais, das plantas e dos corpos celestes. A terra e o que esta contem, são vistos como estando vivos e imbuídos de espírito. Também a eles se realizam oferendas, em geral do exterior.
Com o tempo, quer os antepassados quer os espíritos da natureza podem adquirir o estatuto de Divindade. Existem bastantes indicações que muitos Deuses tenham sido em tempos antepassados reais e físicos, mais tarde, com o tempo, deificados. O mesmo acontece com os espíritos da natureza com Grian e Boann.
Mas voltemos ás oferendas. Comecemos pelas oferendas aos antepassados. Uma pratica comum é a criação de um altar aos antepassados. Este pode ser uma prateleira, uma pequena mesa, que é adornada com fotografias e objectos dos nossos antepassados, algo que para nós seja simbólico dos mesmos. Deverá também haver um recipiente exclusivamente para depositar oferendas.
Estas podem ser pedaços de comida, tradicionais ou não (ver primeiro post que fiz sobre oferendas), e de bebida, seja leite, agua, ou bebidas alcoólicas. É importante ter em mente que muito provavelmente a grande maioria de nossos antepassados recentes foram cristãos e não pagãos, e há que respeitar também as suas crenças. Não há problema algum em colocar uma cruz num altar a um antepassado que foi um cristão devoto.
É importante ter também em mente os gostos dos antepassados em questão, por exemplo, se algum antepassado vosso tinha preferência por algum prato, gostará certamente de que este lhe seja oferecido. Se algum antepassado tinha preferência por alguma bebida, ou alguma marca especifica, ou algum tipo de objecto (por exemplo se fizesse colecção de pequenas estátuas de mochos (o meu avô fazia)), certamente gostará de o receber como oferenda.
No caso de mortos recentes podemos acompanhar as oferendas com orações por eles, no caso dos que partiram à mais tempo, podemos pedir conselhos, protecção, bem como oferecer orações, poemas, musicas canções.
Outra coisa que se pode perfeitamente integrar nas oferendas, são velas, incenso etc... Quanto à localização do altar para os antepassados, no meu caso utilizo a cozinha, pois a minha memória está repleta de bons momentos passados à volta da cozinha com os meus antepassados mais recentes. Outro local que utilizaria se tivesse seria a lareira. Quer um local quer outro são locais com uma grande associação ao lar e aos antepassados.
Quanto aos espíritos da natureza, vivendo em áreas urbanas complica um pouco a questão, até porque as oferendas aos espíritos da natureza requerem algum grau de conexão com a terra, que é difícil em zonas urbanas. No meu caso, faço algumas oferendas a espíritos da natureza
Fora isso faço oferendas aos espíritos da natureza em locais em que facilmente sinto a sua presença e onde ao longo do tempo, meditando, ou em oração, acabei por criar uma forte ligação com os espíritos do local. Nalguns desses sítios criei pequenos altares com elementos naturais ali presentes, o que também é uma pratica interessante, sobre os quais efectuo oferendas frequentes, de comida (pão, bolos, avelãs, bagas, fruta) e bebidas (leite, agua, cerveja, hidró-mel e whisky).
No que toca aos espíritos da natureza, a ligação com a terra é de extrema importância. Recentemente foi divulgado um documento bastante interessante sobre o assunto, que aconselho a que leiam, pois tem tudo o que possam querer saber.
Por fim chegamos ás oferendas aos Deuses. No meu caso tenho um altar onde honro todos os Deuses a quem presto culto, e mais um ou outro altar, para Deuses com mais importância no meu caminho.
Sobre esses altares é importante que haja agua e fogo. Fogo e agua são imagens centrais no Reconstrucionismo Celta. No local onde os três mundos se encontram, encontramos o poço da sabedoria, do qual se ergue uma chama, a chama de Iomas. Quando fogo e agua se encontram, produz-se neblina e essa neblina é uma das principais portas para os outros mundos. O fogo é também símbolo da presença dos Deuses. A agua simboliza o poço, que nos liga com os que estão a baixo, e o fogo liga-nos com os que estão em cima.
Claro que todas as oferendas podem ser feitas usando fogo, colocando-as sobre chamas para arderem, quando tal é possível.
Altares a divindades individuais poderão conter símbolos das mesmas, ou algo relacionados com suas historias. Mais uma vez é conveniente que o altar possua um recipiente para receber as oferendas.
Também aqui as oferendas podem variar de Divindade para Divindade. Por exemplo leite e mel para Brighid, cerveja para Goibniu, etc...
O acto de fazer uma oferenda é mais do que simplesmente depositar algo num altar. Esse acto requer intenção e energia. Qualquer um que esteja familiarizado com outras "tradições" pagãs como a Wicca, ou com magia, saberá certamente a que me refiro, e não terá problemas de maior. Quem não esteja, é basicamente uma questão de "feelling" que pode demorar algum tempo a desenvolver, mas mais tarde irei voltar ao assunto.
Convém que antes de realizar as oferendas se realize um pequeno ritual de purificação, que em RC dá pelo nome de saining. No próximo post explicarei um pouco melhor.
Todas as oferendas feitas no interior devem ser deixadas no altar por algum tempo e depois levadas para o exterior, e depositadas respeitosamente num local apropriado.